sábado, 10 de dezembro de 2016

Medo do Papai Noel





Cláudia Rodrigues

O guri estava com 4 anos e desde o primeiro contato com a figura do Papai Noel, sempre resistiu. Com um ano abriu o berreiro só de olhar. Pai e mãe acolheram, era muito pequeno para entender sobre o velhinho e a lenda dos presentes.

No segundo ano decidiram tentar de novo, afinal todas as crianças gostam e nesse ano seria diferente, ele já pedia coisas, era só associar a figura do Papai Noel com a palavra Natal, a festa e tudo daria certo.
De novo o menino encrencou, assim que viu o sujeito de roupas vermelhas e barbas brancas pulou no colo do pai gritando desesperado.
A mãe sorriu, tentou seduzir, mostrou as outras crianças, como pegavam balinhas, como o velho era bacana com elas, mas não teve jeito, o moleque nem olhava, com os olhos apertados, enfiados no colarinho do pai.
Meio frustrados, desistiram, não era bom insistir, talvez aos três anos.

No ano seguinte foram de novo, dessa vez escolheram ir a um shopping diferente para ver se funcionava. Nem chegaram à introdução, o menino havia corrido na frente dos pais, atraido pelas luzes da decoração, mas acabou dando de cara com o Papai Noel e voltou como um raio para perto dos pais, escalando a mãe em menos de um segundo, chafurdando na blusa da genitora.
Dessa vez o pai que insistiu, chegou a dar uma forçada, mas desistiu quando a mulher fez um sinal de que forçar não seria uma boa ideia.
E o moleque chegou aos 4 anos, já jogava damas, respeitava as regras do jogo, sabia pular, mergulhar e nadar. Dessa vez com certeza daria certo.
Lá foram os pais para nova tentativa.

O guri assistiu meio entendiado a chegada do Papai Noel de helicóptero, depois entrou com os pais na fila para ver o Papai Noel e permaneceu entediado, queria comer algo, pediu para ir ao parque andar de bicicleta.
Os pais ali, insistindo.
Filho, só mais um pouco e já vamos ver o Papai Noel e logo podemos comer e ir ao parque.
Alguns minutos depois o piá formula uma pergunta:
Por que vocês querem ver o homem fantasiado?
É o Papai Noel, filho, você não quer vê-lo?
Não, não quero, quero ir à praça.
Filho, você não gosta do Papai Noel?
Gostei da parte do helicóptero.
Você tem medo de chegar perto dele?
Não, eu tenho vergonha.
Vergonha de quê?
De um homem grande se fantasiar assim em vez de Batman.

terça-feira, 22 de novembro de 2016


O gauche do parto humanizado no Rio Grande do Sul

O gauche do parto humanizado no Rio Grande do Sul, Ricardo Herbert Jones, foi cassado pelo Conselho Regional de Medicina do RS.
Por motivos políticos, depois de uma defesa irretocável do ponto de vista clínico. O que se fortalece é  o ideal de nascimentos hospitalares, a garantia de que o sistema, riquíssimo em cirurgias desnecessárias e iatrogenias, continue a pleno vapor. O que se persegue é o atendimento humano e o respeito pelo desejo das mulheres que desejam parir em posições livres nos hospitais ou em casa.

Compartilho entrevista concedida em 2012

Cláudia Rodrigues

Autor de Memórias de um Homem de Vidro – Reminiscências de um Obstetra Humanista, já na 3ª edição, esse obstetra gaúcho é o único médico em Porto Alegre que assiste partos domiciliares. Respeitado internacionalmente por grandes nomes da humanização, como Michel Odent, Robbie Davis-Floyd e Debra Pascali-Bonaro, ele dá cursos e palestras em Portugal, Uruguai, México e nas capitais brasileiras que estão à frente do movimento pela humanização do parto e do nascimento.

Filho de um funcionário da CEEE e de uma funcionária da GE que deixou de trabalhar para formar família, Ricardo Herbert Jones nasceu em novembro de 1959 no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. A família Jones chegou a morar em São Leopoldo para facilitar o trajeto do pai, que trabalhava nessa cidade, mas voltou para Porto Alegre quando Ricardo estava com 6 anos. Foi criado no bairro Menino Deus no tempo em que as pessoas colocavam cadeiras na calçada nos finais de tarde de verão. Atravessava a praça para ir à Escola Estadual Presidente Roosevelt, andava solto, sem medo de nada. Um de seus maiores prazeres era sentir o cheiro da comida que a própria mãe estava a preparar quando ele voltava do colégio. O último ano do 2º grau acumulou com o cursinho pré-vestibular Mauá e não deu outra: entrou na já disputada medicina da UFRGS em 1977, aos 17 anos.

Sul 21: Os cursos de medicina têm fama de serem divertidos, ainda que se estude muito os estudantes saem, tem as patotas, como todos os cursos. Como foi essa fase para o Sr.?

Ricardo Jones: Não tive isso, fui pai aos 22 anos e adorei descobrir a paternidade tão cedo. Para mim a faculdade era uma referência profissional, de formação e já no segundo ano eu estava trabalhando, fazia muitos plantões. Nunca fui de festas, políticas, o tempo em que não estava estudando e trabalhando, ficava em casa, eu era pai, sempre brinquei muito com meus filhos. Apesar de a paternidade ter surgido em minha vida de forma prematura, eu jamais me senti prejudicado por esta extemporaneidade. Ser pai muito jovem foi o grande estímulo que tive para me dedicar à minha grande paixão: o trabalho com o feminino e o nascimento humano, os meus filhos foram o motor do meu crescimento.

Sul21: Os teus filhos nasceram de parto normal...

R.J.: Sim, os dois, Lucas nasceu em 1982 e Isabel em 1985, ambos de parto normal, isso não era uma questão, nunca imaginamos, Zeza e eu, uma cesariana. A opção pelo parto normal, na época, não estava relacionada com um ativismo consciente, mas apenas com a ideia de que “essa era a forma normal de ter um filho”. Temo que os pais que estão tendo seus filhos hoje sofram com uma imagem pervertida dessa situação: o “normal” passa a ser planejar uma grande cirurgia abdominal para a extração de um bebê. E isso me parece uma tragédia, visto que é um modelo estético-cultural que favorece instituições e corporações, mas que sacrifica o bem estar de mães e bebês.

Ele levanta, abre um armário e traz um maço de fichas datadas desde 1985, quando atendeu seu primeiro parto oficial. Nome da mãe, do bebê, o histórico do atendimento em letras de forma caprichadas. A cada 100 casos ele fecha os índices: apgar – nota que se dá ao bebê ao nascer, o endereço da mãe, o peso, sexo. Observa e mostra. “Olha, aqui um ano que obtive 11% de cesarianas, aqui nesse maço 22%, aqui as justificativas para cada cesariana realizada, vamos aprendendo, tenho tudo anotado desde essa primeira parturiente, que por acaso tem o nome da minha esposa.”

Sul21: Como se explica que no RS, em 2012, na capital do Estado, apenas um médico atenda partos domiciliares?  

R.J.: A formação de médicos humanistas obedece dois modelos essenciais, que simulam os processos adaptativos na zoologia. Podemos produzir médicos humanistas por seleção natural ou por mutação. Eu sou uma “mutação”, visto que nunca recebi de outros colegas do meu meio o estímulo para estudar e trabalhar em um modelo de humanização.  Entretanto, espero que através de uma maior conscientização da sociedade civil sobre direitos reprodutivos e sexuais ocorra uma exigência maior pelo respeito aos aspectos subjetivos do nascimento. Com isso, novos médicos serão levados a ter uma postura mais humanizada por “seleção natural”, pois a atitude mais cidadã dos clientes forçará uma reação adaptativa dos profissionais. O RS é um dos estados mais atrasados do Brasil na humanização do nascimento, a questão não se encerra em ser domiciliar. Parto domiciliar é um direito da mulher, um direito de escolha a que recorrem mulheres bem informadas, que lêem muito, consultam evidências, são críticas em relação a esse sistema obstétrico que é iatrocêntrico, centrado no médico; etiocêntrico, centrado na patologia e hospitalocêntrico, centrado no hospital. Podemos citar o caso da episiotomia de rotina, http://www.scielo.br/pdf/rbgo/v29n1/a01v29n1.pdf procedimento que está derrubado em termos científicos desde 1983 e continua acontecendo.

Sul21: O Sr. Não faz episiotomia?

R.J. Vê bem como é complicado, eu não faço desde 1990, levei anos para conseguir parar porque procedimentos na medicina são ritualísticos, repetidos, padronizados e é difícil parar um ritual daquilo que sempre se fez igual, é como uma reza e o sistema médico segue essa religião, é isso que o fortalece, a repetição. Estamos em 2012 e aqui no RS 80% das mulheres sofrem episiotomia ainda! É assim com a tricotomia também http://www.scielo.br/pdf/csc/v10n3/a20v10n3.pdf, não tem valor científico, é mais arriscado inclusive, não se justifica raspar os pelos pubianos da mulher para o parto. Isso já se sabe, mas então o que se faz para manter o ritual? Deixa-se um chumaço de pelos aparentes e raspa-se a parte de baixo, é uma maneira de infantilizar a mulher, como o tratamento muito comum de chamar as parturientes de “mãezinha”. Como as mulheres podem se sentir fortes para parir sendo tratadas como meninas?

Sul21: Como o Sr. age quando uma cliente pede uma cesariana eletiva, quer agendar?

R.J. Não faço cesarianas eletivas a pedido, sem qualquer indicação clínica, mas as minhas clientes, 45% delas chega pedindo parto hospitalar humanizado, elas são atendidas por mim hoje no Hospital Divina Providência e cerca de 65% delas pedem parto domiciliar, já vieram com indicação de uma amiga ou conhecida que viveu a experiência de um parto. As minhas clientes são pessoas que sabem o que querem em sua maioria, elas buscam um atendimento humanizado, seja hospitalar ou domiciliar.

Sul21: Como é um atendimento fora do padrão de um hospital e porque esse “hoje” atendo no Divina Providência?

R.J: Não usamos medicamentos rotineiramente; em algumas circunstancias usamos, não dopamos, a dor é tratada prioritariamente com massagens, carinho, apoio, a mulher é dona do parto, é a protagonista, nós estamos ali para servir, assistir e esperar o tempo dela tornando esse tempo o mais agradável possível. Sobre “hoje”: o Divina Providência é o hospital que aceita de maneira mais tranquila o modo humanizado de atendimento ao parto, mas em qualquer hospital um obstetra como eu, que entra com uma equipe, uma doula, uma enfermeira obstetra, a Zeza, e com as pessoas que a gestante escolhe porque a parturiente tem o direito de querer o marido ali ativo ou a mãe, que seja; é um obstetra que incomoda. É luz baixa, horas a mais que se ocupa o ambiente, tudo isso é desconfortável do ponto de vista institucional e causa estranhamento, incômodos, não deixa de ser uma crítica ao sistema que existe ali como um todo, é diferente do que todos fazem, então não é uma situação cativa estabelecida.

Sul21: Não há apoio de universidades aqui no RS, não há vínculos entre a universidade e as maternidades públicas e privadas, como isso tende a ficar agora que a Rede Cegonha está aí querendo humanizar os partos no SUS?

R.J.: Aqui no RS o professor Alberto Abech, da UFRGS, é simpático ao ideário da humanização aliando-o a uma conhecida competência profissional. Não lembro de outro nome do ambiente acadêmico. No RS o parto é feito sob o modelo da década de 1950 e o mais comum é a cesariana, mais prática para os obstetras, mais rentável.

Nesse momento temos pessoas de alto nível técnico da humanização no Governo Federal, como Esther Vilela, coordenadora da Área Técnica da Saúde da Mulher. Mulheres de linha de frente como Daphne Ratter, Mazé e Tânia Lago têm trabalhado para que a humanização do parto e do nascimento se desenvolva no Brasil. O representante na sede brasileira da OPAS –Organização Pan-Americana da Saúde é o Rodolfo Gomez, que foi diretor executivo da International MotherBaby Childbirth Initiative http://midwiferytoday.com/articles/IMBCI.asp, então temos aí um time que trabalha com base em evidências por uma humanização do atendimento ao parto e ao nascimento e a ideia é colocar em prática nacionalmente. Um nome que não posso deixar de citar é o da Dra Melania Amorim, que não está trabalhando diretamente na Rede Cegonha, mas é um exemplo, talvez o maior Brasil, ela tem um trabalho e uma trajetória profissional incontestável e também atende partos domiciliares. http://guiadobebe.uol.com.br/parto-em-casa-e-seguro/  Sul21: Como o Sr. vê uma mudança de atitudes dos obstetras do RS se eles consideram parto domiciliar um risco, acham frescura o atendimento humanizado, não freqüentam palestras sobre humanização, não se atualizam, continuam fazendo episiotomias de rotina, tricotomia e principalmente cesarianas sem indicação clínica, muitas vezes eletivas?
 
R.J. Parte do montante de 9 bilhões que serão aplicados pela Rede Cegonha será investido em casas de parto. Aqui em Porto Alegre não temos nenhuma e pelo modelo que se pretende implantar, é fundamental a presença da enfermeira obstetra. Uma casa de parto deve ser coordenada por enfermeiras obstetras, é assim em todo o mundo quando se utiliza sistema de referências para partos de baixo risco. A Rede Cegonha prevê que seja assim e é ótimo, melhor para as mulheres. Em outros lugares do Brasil isso já é uma realidade, mas no RS a enfermeira ainda é a mulher da bandeja, que serve o médico. Aqui no RS uma enfermeira obstetra só atende parto se for uma emergência e não houver um médico por perto, mas isso é inadequado, basta ver o modelo existente em países europeus onde as taxas de morbimortalidade são muito menores e a assistência é baseada no trabalho das enfermeiras obstetras, sempre com respaldo de obstetras em caso de necessidade. As enfermeiras obstetras são capacitadas para atender partos, mas como aqui não existe essa função, não podem praticar, sendo assim pode haver um problema de falta de experiência, será algo novo para elas. Em São Paulo tem um curso na USP para formar obstetrizes e em várias capitais já existem casas de parto coordenadas por enfermeiras obstetras e parteiras profissionais. http://www.ims.uerj.br/lappis/index.php/incubadora/62-casa-de-parto/249-casa-da-gestante-zilda-arns-melhor-iniciativa-institucional-segundo-a-opasoms.html 

Sul21: Em outros lugares do Brasil é fácil essa relação entre a assistência humanizada pró-parto e o universo cesarista criado pela obstetrícia sob o poder dos médicos? No Rio de Janeiro não há problemas com as casas de parto?

R.J.: Sim, as casas de parto frequentemente sofrem embargos dos conselhos de medicina e os poucos médicos que apoiam a humanização acabam sendo punidos, é uma maneira de intimidar os simpatizantes que vêm da medicina a manter os rituais, o poder, a proteção à corporação médica como dona do parto fisiológico, mas a situação de atendimento ao parto, os abusos e os problemas vêm se agravando nos últimos anos porque os médicos não querem despender o tempo necessário para acompanhar partos, somos treinados para a cirurgia e muitos estão focados exclusivamente na questão tempo=dinheiro. O que aconteceu recentemente com o Marcos Dias, no Rio de Janeiro, é inominável, mas a reação, por parte de colegas, de redes de mulheres, http://partodoprincipio.blogspot.com/2011/12/nos-tambem-apoiamos-marcos-dias.html da Rehuna, http://www.rehuna.org.br/ veio com força. Há reações a esses linchamentos morais, quando se ataca a pessoa porque não se consegue combater as ideias.
 
Sul21: Esses linchamentos morais, ameaças, como no caso do Dr. Marcos Dias, acontecem em decorrência de um parto malsucedido, de um natimorto. Como é isso em números?

R.J.: É simples, se um bebê nasce via cesariana eletiva com 36 semanas e morre dentro do hospital, considera-se uma fatalidade, essas coisas são essencialmente impunes porque estão dentro da mitologia contemporânea de veneração à tecnologia. Esse procedimento é condenado pela Organização Mundial de Saúde, mas a cesariana eletiva sem indicação clínica é muito comum no Brasil. Além de causar mortes, acarreta problemas cardiorrespiratórios em bebês, baixo peso, problemas de pega na amamentação, mas está protegida pela corporação e pelas instituições. Os números são alarmantes, há pesquisas, evidências, a cesariana eletiva sem indicação clínica já está sendo estudada como epidemia, está banalizada. Sabe-se também que 27% das mulheres reclamam de maus tratos na hora do parto dentro do hospital, isso tudo fica assim, há uma proteção da corporação e fica subentendido que aquele bebê não teria salvação. Já o caso de transferência para hospital a partir de uma casa de parto ou do domicílio da mulher, basta um caso em 10 anos, isso aconteceu comigo, para que seja aberto um processo. O parto domiciliar ou em casas de parto no Brasil, ainda que seja seguro e baseado em evidências, é atacado e a melhor forma de atacar é a perseguição ao indivíduo, que é frágil dentro do sistema. A cesariana salva vidas, sempre vai salvar, em gestações de alto risco, o que se verifica durante o pré-natal, não devem ser encaminhadas para um parto domiciliar, embora nem sempre um alto risco seja necessariamente indicação para cirurgia. Em casos de gestação gemelar, de pressão alta e diabetes, nem sempre a cesariana é uma indicação imediata, embora o acompanhamento do trabalho de parto  e o parto deva ocorrer em uma maternidade. Isso conforme as evidências. Na prática o mais comum é que uma diabética tenha sua cesariana agendada. 

Sul21: Ser médico obstetra e atender partos domiciliares é muito arriscado, então por que o Sr. entrou nisso, por que correr esse risco em vez de atender apenas em hospitais? É um bom filão no mercado, ganha-se bem atendendo esse público seleto e bem informado?

R.J: Não sei se é um bom filão, não sou um sujeito ligado em dinheiro e status, meu carro tem dez anos e como médico atendo pessoas e essa necessidade que existe, para algumas mulheres, de parir seus filhos, viver essa experiência que é de vida e não de doença. Também porque é um direito da mulher escolher o local em que se sente mais segura para parir, portanto essa é uma questão, assim como o aborto, que extrapola o debate puramente médico; é uma discussão que envolve uma compreensão mais complexa de direitos humanos reprodutivos e sexuais. Tem a ver com liberdade e autonomia das mulheres, e é por essa razão que países de larga tradição democrática da Europa, como a Inglaterra, estimulam a livre escolha do lugar de parir. Há evidências de que com um bom pré-natal, não sendo a gestante de alto risco, o parto fisiológico é tão seguro em casa quanto no hospital e além disso respeita-se o ritual familiar, vive-se com aquela família a intensidade de um momento muito especial. Do ponto de vista humano é extremamente gratificante acompanhar a dimensão familiar e emocional do parto; é uma riqueza que o modelo tradicional não oferece para a família e que muitos médicos não se interessam, mas a mim me interessa e me toca.
“É assim”, diz, acessando um vídeo de um parto que assistiu. As imagens brotam na tela e ele vai narrando a história daquela família com ele. Uma gaúcha, casada com um indiano, decide ter o bebê no RS, optam pelo hospitalar humanizado. O primeiro filho nasceu de cesariana na Índia. Ela luta, recebe massagens da doula, o marido se mantém sorridente. “Os pais ajudam muito quando se mantêm confiantes.” A doula faz massagens, conversa, acalma a parturiente. “Ela lutou, foi um parto longo, mas os batimentos cardíacos do bebê estiveram sempre bem, o estado geral dela também, muita segurança, ela foi corajosa.” O bebê vem, é uma menina, nasce rosada, o médico recebe, desenrola o cordão e entrega para a mãe imediatamente. Ele volta para a câmera e filma a felicidade dos envolvidos em um momento pessoal só deles. Sem intervenções desnecessárias, o bebê procura o seio, a mãe vai reconhecendo o filho fora da barriga pela primeira vez. O pai comemora e o menino, filho mais velho, chega para ver a irmã.
 “Olha, o menino, filho deles, muito alegre esse menino, muito bonito, ele faz aí a imitação de um  Tiranossaurus rex, ele fez questão de me mostrar como era sua imitação perfeita de tiranossauros rex e fiz questão de colocar a imagem aí na edição do vídeo, pareceu importante incorporar imagens do menino no parto da irmã, na festa íntima e particular deles”.
 Depois de tantos anos assistindo partos e vídeos que ele mesmo produz para presentear às famílias, o médico se emociona, assim como o fotógrafo e a repórter. Está plenamente compreendida por que, apesar dos dissabores, dos linchamentos morais, dos riscos para a carreira, um obstetra escolhe atender partos assim, fora do modelo tradicional e hoje, em 2012, já com evidências de segurança. 







domingo, 20 de novembro de 2016

Efebofobia, a aversão a jovens


Cláudia Rodrigues
Efebofobia, medo ou aversão a adolescentes e jovens, não é tão incomum, afeta o comportamento, as relações sociais e íntimas entre jovens e pessoas das mais variadas faixas etárias, além da família e professores.
Jovens são originalidade em estado bruto, merecem respeito.

Jovens que desejam melhorar as escolas que têm, muitas em péssimas condições de manutenção, depois de sucessivos anos de descaso político, são maltratados pela polícia a serviço do Estado. Como assim? Golpe. Baixo.

Para ajudar, atraso de salários, depósito de toda a responsabilidade financeira  dos estados e do país para a educação. Os professores e alunos das escolas públicas são escolhidos para sofrer a própria exclusão escolar ou ficarem no salve-se quem puder.

E sim, nossas escolas contam com profissionais de alta qualidade, média e casos graves que precisam tratamento, quando é necessário conviver e educar jovens ao mesmo tempo em que há aversão aos comportamentos naturais dos jovens.

Para a efebofobia não há vacinas, é preciso encarar, sentir e aprender a lidar com os próprios limites diante da força tão viva dos jovens. José Angêlo Gaiarsa foi ótimo em explicar isso, ele chamava os adultos de invejosos em relação às crianças e aos jovens.

E é verdade. Não que não seja necessário fôlego para dar conta do autocentramento dos jovens, voltados para eles, focados em suas vidas, cheios de si. No início pode ser difícil para eles darem conta das novas demandas da autonomia. São esquecidos, especialmente se tiveram responsáveis muito controladores, podem parecer avoados aos olhos dos adultos ou “ofensivos”, quando se irritam com aquilo que consideram implicância. Eles têm vigor, vigor juvenil, recém-nascido, estão em explosões hormonais e corticais, merecem mais que respeito, cuidado, atenção, serem ouvidos e atendidos em suas necessidades, que passam longe de viagens e presentes. Eles querem escola, direito a estudar, passar no Enem, entrarem na universidade. 

A sociedade adulta espera dos adolescentes muito mais do que eles podem dar em troca e dá muito menos do que eles necessitam para desenvolverem suas capacidades. E a primeira coisa bem ruim que se faz contra a boa relação com adolescentes ou jovens é confundir promoção de convivência com obrigatoriedade. O jovem gosta e precisa estar só tanto quanto gosta e precisa de amigos, mesmo que seja só um.

Adultos têm em geral pouca paciência com jovens, especialmente se já vieram de uma relação de pouca paciência com os filhos pequenos. Nas relações profissionais entre alunos e professores pode ser diferente, mas igualmente refletirá a história de ambos em suas famílias. Os adultos tendem a tratar adolescentes e filhos jovens com autoritarismo ou descaso. Se sentem enfrentados, confrontados, não dão conta de seus próprios insucessos diante da vida brotando, plena de autoconfiança e bons propósitos. Começam a agir meio que na vingança e no despeito com chantagens, subornos e intensidades variáveis de violência.

Não há como não herdar a educação familiar e é um processo escolher e conseguir fazer repetições ou reparações conscientes, mas a maior parte de nós repete feito catraca por gerações a fim, inconscientemente.
O filme atual na macro, no atacado, é o mesmo da micro, o varejo é esse, repetição em grau master numa sociedade que consegue em muitos casos ir aos bastidores do conservadorismo para encontrar razões em crenças absolutamente retrógradas.

E os ódios, as paixões de horror, essa coisa Barraco da Globo Produções tomou uma proporção paquidérmica que paira sobre nós. Depois de anos assistindo novelas e JN, Caras e Vejas, as pessoas saíram para a rua e começaram a esbravejar contra jovens e direitos humanos fundamentais.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

14 anos


Memórias em construção constante Cláudia Rodrigues Depois de uma tarde de andanças no centro ela senta ao meu lado e em frente ao pai no banco do ônibus, suspira e exclama com evidente alegria e sobra de energia: "Como eu gosto de vir ao centro da cidade!"
"Nós também", respondemos de imediato.

E o resto da viagem foi povoado pelas memórias do centro.
Teve o primeiro dia em que a levei ao Café Haiti e contei que aquele lugar era muito antigo, conhecia-o da versão anterior, mas antes da versão da minha época, ainda houve outra versão. Olhamos as fotos de todas as versões e mostrei a ela o que ainda era muito semelhante, o clima da "lanchonete". Ela pergunta mais e mais, comentando com sua natural neutralidade. Ela, que também vai ao shopping, como qualquer adolescente.

Coloca limites quando implico com os prédios envidraçados, acha que exagero na paixão e me mostra a razão admirando com tanto gosto as construções antigas. Retruco, falo do espaço e da qualidade.
Ela argumenta sobre espaço e número de pessoas. Xeque-mate.

Aos cinco anos conheceu a Casa de Cultura e o quarto do Mario Quintana, mas o que rendeu a conversa foram suas perguntas e reflexões sobre os artistas que pintavam quadros na rua e os quadros dos artistas do museu. Não deixou por menos ao dizer que os quatros dos pintores podiam ser tanta poesia quanto o Mario Quintana era um pintor com palavras. Ganhamos nós dois mais uns 10 anos de vida ao ouvir isso daquela figurinha de apenas cinco anos. E não havia vaidade alguma em suas palavras, ela não tinha exata noção do que dizia e nem entendeu nossa alegria.

No centro tem tudo e de tudo, é lugar dos super-incluídos e dos excluídos, de toda gente que não idolatra qualquer tipo de pasteurização. As pessoas vêm dos arredores para vender seus produtos. O mercado recebe alguma coisa, no mais ficam por ali vendendo para os passantes. O comércio é a mistura original dos imigrantes. Árabes, portugueses, espanhóis, africanos, asiáticos e mais os chegados do interior e de todos os estados brasileiros. Só o centro é uma amostra da inteireza da cidade e foi ali que tudo começou.

Dessa última vez comprei duas mangas doces e suculentas que não existem no Zaffari.
Um centro higienizado só com mangas do Zaffari, repleto de carrões e sem espaço para as pessoas é um projeto de insegurança pública. A gentrificação pode ser grande, mas não pode atingir o cérebro público da cidade. E aí todo cuidado é pouco.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O bem é simples e poderoso, o mal é belo e grandioso

Cláudia Rodrigues

O ser humano é gregário, necessita de grupos, sentir-se amado, compreendido, aceito e reconhecido.
O ser humano sofre quando sente que não pertence ao seu grupo familiar, social, escolar, de trabalho. E todos nós sofremos disso desde o primeiro choro até o último suspiro.
As religiões, as tribos, as várias faces do misticismo, sempre exploraram essas dores humanas de forma vil, usando o dinheiro, o dízimo, a pirâmide, a mandala, para explorar o sentimento de não pertencimento, prometendo sabedoria, pureza, elevação espiritual.
Autoconhecimento é um processo árduo, contínuo, terreno e sem troféu que acompanha as pessoas a tornarem-se apenas boas o bastante para si mesmas e para os outros.
O mal é maior do que o bem desde que o mundo é mundo, mas uma única gota de bem remove grandes quantidades de mal. O bem é prático, é o gesto, a palavra, a atitude benígna. O bem não é o que gostaríamos de ouvir e crer, é a amplitude real de nossas capacidades humanas, é suor, é equilíbrio real e diário, é satisfação por meio do esforço. O mal, pelo contrário, é fácil e facilmente se traveste de belo. O mal está na imaginação, na projeção, o bem no corpo em conjunção com a mente, na responsabilidade por nossos atos.
Não basta ter o que se imagina e crer no que se gostaria, é preciso ser sem ilusão compreendendo o nosso microtamanho e todas as nossas muitas limitações.
Não vamos confundir idolatria e sua amiguinha mais próxima, a inveja, com gratidão.
Investir em árduo conhecimento sobre determinado assunto não traz sabedoria absoluta, ela sempre é parcial e mínima, mas desfazer do conhecimento sempre multiplica a ignorância e a ignorância traz a guerra em escalas variadas.
Não tem troféu, não tem pote de ouro atrás do arco íris, tudo que o temos é um corpo para amar livremente e uma mente para perceber o amor capaz nesses corpos. Isso é simples, mas dá um trabalhão.
Minha ínfima melhor parte saúda a sua ínfima melhor parte para que a vida flua minimamente boa o bastante.

sábado, 3 de setembro de 2016

Tudo a mesma coisa é a maçaroca da sua despolitização

Cláudia Rodrigues
Quem votou na Dilma, sigla PT em coalizão com Temer e bancada PMDB, votou em um projeto de governo porque a coalizão visa, no nosso sistema (bem ruim) ter um número de votos suficiente para aprovação de pautas do governo votadas pelo CONGRESSO.
O PT não poderia se unir ao PSDB, outro grande partido, por razões óbvias e acabou fazendo a união com o PMDB, que ficou de votar JUNTO com o PT. Entretanto, com Eduardo Cunha- PMDB- como presidente da Câmara, NENHUMA proposta do projeto do governo era votada. Os deputados não compareciam às votações ou votavam contra.
Dilma fez alguns vetos, como aumento de salários do setor judiciário e assinou alguns decretos para favorecer indígenas, quilombolas, mulheres e comunidade LGBT. Mas esse poder da presidenta não é total no nosso sistema, ela precisa de apoio do Congresso.
Outras propostas do projeto de governo do PT, como redemocratização da mídia e reforma política, irritaram a bancada do PMDB e começou um ajuntamento do PMDB com DEM, direita ultra-conservadora, com a bancada evangélica, a ruralista, a da bala e até mesmo com o PSDB, a fim de derrubar a presidenta, que se recusava a fazer negociatas e por isso era chamada de durona e inflexível.
Assim, não sejam burraldos e burraldas, não é uma questão de ser petista ou esquerdista, de apoiar esse nome ou aquele nome, desse partido ou daquele partido, seja do seu gosto ou não. Estamos diante de um golpe midiático/parlamentar/militar com razões vis.
Em três dias de governo, o motivo pelo impeachment da Dilma, as pedaladas, foi extinto, uma lei foi sancionada admitindo as pedaladas.
Apenas dois dias depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff,o governo de Michel Temer interferiu na Comissão da Anistia. Seis membros históricos do grupo foram exonerados sem pedido formal e uma portaria do Diário Oficial da União assinada pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, determinou os desligamentos, enquanto outra nomeou 20 novos conselheiros para a Comissão, alguns deles ex-colaboradores da ditadura civil-militar.
O atual governo ilegítimo, coalizão que tomou o poder usurpando votos de outro programa, apresenta já em seus primeiros dias um programa COMPLETAMENTE DIFERENTE, que tem como objetivo entreguismo ao capital internacional, bem à década de 1970, repressão aos movimentos populares e direitos civis, diminuição de direitos dos trabalhadores, que chamam de flexibilização e manutenção da CORRUPÇÃO, já que mais de 60% dos senadores que votaram a favor do impeachment, incluindo Temer, são citados em operações da Polícia Federal como a Lava-Jato e a Zelotes.
Essas operações, que seguiam a pauta de apurações e apreensões no governo do PT, agora JÁ SUMIRAM do mapa das notícias. Vocês não vão mais ouvir falar delas porque fez parte do acordo pelo impeachment o sumiço. Agora temos apenas a operação abafa.
Estudem mais, entendam mais, participem e parem de compartilhar essas perversões, a menos, é claro, que sejam corruptos e estejam faturando algum nessa história, direta ou indiretamente, porque aí sim dá para entender esse ódio cego. Ele seria em causa própria.
Amigos, parem de me envergonhar, quero acreditar que vocês são honestos e gente do bem.
Odiar o PT não ofende ninguém, cada pessoa é livre para votar no partido que quiser, se abster ou votar nulo, mas achar que o Temer e essa galera toda aí que fez isso precisa de apoio para fazer um país melhor, é doença, é perversão.
Leiam as propostas que estão na pauta agora, assistam as votações, pensem e parem de pagar mico de falta de estudo. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Alienação parental, o porão da janela da ausência





 Cláudia Rodrigues

Durante o último Dia dos Pais as redes sociais foram inundadas por posts sobre as mães que se auto-proclamam pães, que se viraram criando filhos e filhas sozinhas e não sem razão se ressentem nesse dia fazendo questão de comemorar o tal Dia dos Pais como um dia para denunciar ausências de afeto, geográficas ou financeiras. É importante fazer os recortes sobre ausências e motivações, assim como é fundamental compreender que presença ou ausência é o que está posto ou imposto corporalmente, mas também pelo discurso.

Com a melhor intenção de denunciar um problema atávico ligado à cultura machista, o remédio usado para tratar macropoliticamente o problema, se transforma em veneno para as criaturas mais frágeis dessa história, as crianças. Micropoliticamente é bom pensar duas vezes antes de falar mal do ex-cônjuge por suas ausências, limites ou “defeitos”, seja ele homem ou mulher.

Faz alguns dias recebi uma pergunta de uma amiga. Mãe de três filhos, ela estava se sentindo mal por ter aceitado um trabalho em outro estado e decidido deixar as crianças com o pai e a mulher do pai por um período longo. Ela queria saber minha opinião sobre o quanto seus filhos se ressentiriam com ela. Respondi que dependeria muito, muito mesmo de como o pai e a mulher do pai se refeririam a ela durante sua ausência. Se promovessem bem a situação, "mamãe está com saudade, ela logo vai ter férias e vocês vão estar na praia com ela", tudo deveria ser bem tranquilo, mas se passassem uma má ideia a respeito de sua ida, seria mais difícil porque as crianças são muito sensíveis ao que os adultos pensam e esperam dela.
Ela garantiu que o pai  e a nova mulher são muito de boas e amáveis com ela, que certamente protegeriam as crianças e promoverariam a situação sem aliená-la.


Ou seja, quando uma mãe precisa ir trabalhar longe, em outra cidade, estado ou país e o pai fica com as crianças, o retorno dessa mãe e a boa aceitação dela de volta por parte das crianças vai depender bastante de como a imagem da distância dela foi passada pelo pai, avós e parentes que ficam com a criança e claro, pela mulher do pai. Isso é fundamental e não deve ser desmerecido.

Os consultórios estão abarrotados de casos de alienação parental como sobreacoplamento a ausências eventuais de pais e mães que poderiam ter sido lidos por seus filhos e filhas apenas como pais e mães bons o bastante, mas que acabam sendo estigmatizados, às vezes por famílias em peso, como vilões.

__Ah, então seu pai era um crápula, um bêbado que não ligava para você; como você lembra dele assim na sua vida, enquanto conviveu com ele?
__Eu? Ah não, o que eu lembro é dele me levando na praia, lembro dele fazendo churrasco e rindo, brincando de fazer buracos enormes na areia...Isso assim dele ser assim bêbado e irresponsável eu ouvi da minha mãe, do meu avô, o pai dela, é o que eles dizem.
 O diálogo acima explica bem um caso de alienação parental.
Uma pessoa já adulta, ao sentir a morte de um pai com quem não conviveu a partir de uma determinada idade e que escolheu não conviver com ele, não procurá-lo na vida adulta por ter passado a vida com a ideia fixa de que seu pai era uma pessoa que não a amava e não merecia sua presença, sofreu e sofre alienação parental.

Lágrimas muito sentidas quando a memória, própria e inalienável de uma pessoa não condiz com a história a que ela foi submetida por quem deteve o poder de criá-la.


Estamos falando de pais e mães que pagaram pensão religiosamente, de homens e mulheres que preferiam sim levar seus filhos e filhas com eles, mas não entraram na justiça para isso. Aí estão homens que eventualmente foram morar em outro país, em outro estado, que tentaram conversa amigável para que as crianças fossem viver com eles e suas novas famílias, mas jamais conseguiram qualquer acordo nesse sentido. Aí estão mulheres que foram fazer um mestrado em outro país, mas não acharam por bem retirar as crianças de sua escola, seus amigos, parentes e pensaram que as crianças, naquele momento de suas vidas, estariam melhor com o pai, melhor assistidas.

Aí estão homens  e mulheres que não conseguiram misturar os filhos e filhas do segundo casamento com filhos e filhas do primeiro casamento a não ser na nova família e por curtos períodos de férias, finais de semana e feriados em decorrência de ressentimentos de seus ex-cônjuges.

Aí estão homens e mulheres, irmãs e irmãos que foram alienados de festas, eventos e encontros da família dos filhos e filhas do primeiro matrimônio.

Existe ausência paterna, existe ausência materna, mas alienação parental sobreacoplada à ausência eventual e plenamente justificável está longe de ser um real tratamento ao problema. Pelo contrário, alienação parental em cima de ausência, mascara outras ausências, valida e transfere ressentimentos  no que não teve, no que não houve, a criança é sequestrada pelas más falas e mau olhar sobre o que deixou de ter e que de fato não poderia ter tido a não ser que seus pais não tivessem se separado, a não ser que seus pais tivessem conseguido conviver melhor mutuamente após a separação.

Faz vinte e cinco anos que falo e repito para amigos e clientes que entram em processo de separação: saiam juntos com seus filhos, aceitem os novos cônjuges, passem natais ou outros feriados juntos, juntem os meio-irmãos tornando-os inteiros porque essa é a única saída saudável para as crianças.

Crianças precisam juntar pai e mãe sem os cônjuges, outros irmãos e irmãs, mas acima de tudo precisam juntar a galera toda eventualmente porque isso é saúde vincular.

A dor da alienação parental é um sobreacoplamento tão monstruoso à ausência que torna a presença real um conto de fadas, como se a presença não pudesse ser internalizada. Uma pena porque essa presença bacana vai surgir após a morte daquele ou daquela que foi vítima da alienação parental do ex ou da ex em eterno ressentimento.

É o caso das crianças que têm um pai que as trata bem, paga a pensão em dia, leva para viajar, passear, mas por morar em outro país ou cidade não consegue fazer guarda compartilhada. Essa criança, mesmo se sentindo bem amada pelo pai, pela mulher do pai, irmãos e irmãs, apesar de viver ótimos momentos reais com sua “outra” família, guardará céus cinzentos dentro de si se sofreu alienação parental por parte da mãe e da família materna.

É comum que avôs tomem o lugar do pai e a criança seja criada ouvindo à boca pequena coisas como: "o avô é sua figura paterna", ainda que a criança veja o pai e desfrute de um pai bom o bastante. O mesmo acontece com avós diante de uma situação em que a mãe precisa se afastar.

Ao mesmo tempo que não faz sentido para ela ouvir frases desqualificadoras sobre seu pai e sua “meia” família, que a trata bem e a ama, faz todo sentido o discurso do abandono e do não pertencimento quando ela está longe e sob a proteção da mãe e dos familiares da mãe.

É pior, bem pior quando a criança não pôde morar com o pai porque a mãe não deixou, mas teve uma mãe ausente, que se orgulhou de ser pãe e viveu no calvário, na penitência e na vitimização. A criança provavelmente se tornará um adulto com Síndrome de Estocolmo, apegada aos que a responsabilizaram por dores que não eram suas, reforçando o foco na ausência daqueles ou daquelas que quando estiveram presentes eram boas o bastante.

Bom o bastante é conseguir compreender que uma vez que se colocou crianças no mundo, o elo entre os dois seres que fizeram isso não deve se romper porque o elo é a criança e ela ficará quebrada caso seus pais conversem pouco e façam pouco esforço para estarem juntos em prol dela, vencendo seus ciúmes infantis de novos cônjuges e novas crianças na família.

A guarda compartilhada é recente no Brasil, as coisas estão melhorando, mas há muitas famílias que vêm lá da década de 1980, quando basicamente a mãe ficava com a guarda e o pai via a criança só em finais de semana, que abriram a guarda por conta própria e não blindaram as extensões familiares.

Há mulheres de pai que se apegaram aos enteados e enteadas, há mulheres de primeiro casamento que receberam em suas casas os filhos do segundo casamento do ex marido, há maridos que recebem bem os filhos e filhas da primeira mulher com outro homem, há homens e mulheres que sentem-se praticamente parentes dos novos companheiros e companheiras de seus ex em prol do investimento saudável do vínculo para e pelas crianças.

Que sirvam de exemplo, que a eventual ausência de um pai ou de uma mãe não seja uma janela para o porão da alienação parental.




http://clinicaexpansao.com.br/disputa-dos-pais-adoce-os-filhos/

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A lua e eu

Tia Blanca, irmã do meu avô paterno, foi quem me apresentou à lua no período em que viveu em uma casa vizinha a dos meus pais, em Tapes.
A lua em Tapes, na Lagoa dos Patos, é de fato inspiradora.
É claro que já havia visto várias luas antes dos16 anos, mas com tia Blanca foi diferente.
Talvez por ter sido na fase das cólicas mais fortes, talvez por acaso ou só por ela mesma ter sido uma pessoa tão agradável e intensa.
Buenas, a lua passou a me perseguir. Sempre soube em qualquer lugar do mundo que a lua deveria estar cheia a partir de sensações corporais. Ia confirmar e era certo, já cheia passadinha, quase cheia ou bem na noite mais brilhante nas fases direto ao ponto.
Ela foi se afastando de mim. Aqueles sintomas todos foram sumindo. Agora são sintomas novos que não se relacionam com a lua. O que era direto ao ponto agora é aliviar qualquer dor, evitar o mal e o mau a qualquer custo, diluição da dor e do prazer, que finalmente não se reconhecem mais como oponentes.
O inverno já não faz tão mal, o verão continua sendo uma delícia e as perfeitinhas primavera/outono continuam sendo no ponto. Os calorões são como cabelos brancos, têm vida própria, não se relacionam com a lua, são descargas espontâneas, espasmos. Pelo tempo e intensidade, lembram as contrações de parto. Quando passam há um frio prazeroso, um alívio, recomeço de qualquer coisa nos bons momentos e medo nos maus.
Lua vai, lua vem, fica a dúvida se foi mesmo embora ou está a dissolver-se no corpo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Espaço Flor do Yoga: Inscrições Corporais com Cláudia Rodrigues

Em Porto Alegre, 10 de setembro, Inscrições Corporais para casais- Pai/Mãe- Pai/pai- Mãe/mãe

Espaço Flor do Yoga: Inscrições Corporais com Cláudia Rodrigues: Cumprindo a programação do espaço Flor do Yoga, convidamos casais a participar da Oficina Inscrições Corporais. A oficina Inscriçõe...

domingo, 26 de junho de 2016

Marketing, o Deus da cara de pau

http://www.jornalja.com.br/marketing-o-deus-da-cara-de-pau/

CLÁUDIA RODRIGUES
Essa semana três notícias dadas pela mídia convencional celebraram a total falta de noção ética e social do setor de marketing de instituições públicas e privadas.
Primeiro foi o governo do Rio Grande do Sul que organizou exposição de roupas usadas em local privado, shoppings, para campanha do agasalho, expondo vestuário de inverno doado por personalidades gaúchas. É isso mesmo, 12 peças pregadas em estandes com o histórico sentimental da roupa. Deve ser o que consideram PPP, participação público privada. O slogan seria: “Ricos, comovam-se com a história sentimental de uma roupa”
Coca-cola, Pepsi e AMBEV exibiram nos jornais o press release de bom mocismo barato sobre o relacionamento alimentar abusivo que mantêm com crianças e adolescentes desde a década de 1960. Para quem não sabe a comida industrializada é a principal  responsável por problemas endócrinos, respiratórios, alérgicos e cardiológicos de crianças e adolescentes do país. O fenômeno atinge todas as classes sociais.
As empresas aproveitam o ensejo para anunciar que seu relacionamento abusivo com crianças e adolescentes continuará firme, mas agora, garantem, estão preocupadas com a saúde.
Os pequenos até 12 anos poderão tomar achocolatados repletos de açúcar, carboidratos, gorduras e ínfima porção de cacau. Ou aqueles sucos 100% fruta fermentada e fervida até morrer, também com muito açúcar. Tudo com corante, acidulante, espessantes.
Quem acha essa comida prática e fácil de comprar, consumir e descartar as embalagens, beleza. É só achar bacana o descarte de refrigerantes para os estudantes de até 12 anos.
A partir dos 12 pode tudo e até os 12, tudo menos refrigerantes.
O que mudou?
Nada, a não ser a ideia de que a Coca Cola, Pepsi e  Ambev estão preocupadas com a saúde infanto-juvenil e trabalhando nisso com afinco.
O Conselho Federal de Medicina exibiu-se no noticiário acatando a lei contra a qual vinha brigando: cirurgia cesariana a pedido da gestante somente após 39 semanas, a fim de baixar os níveis alarmantes de prematuridade de bebês no Brasil.
Se a cesariana eletiva fosse o único problema ético e prático da obstetrícia, seria uma boa notícia. Assim como o Brasil serviu de plataforma para a industrialização da alimentação, promovida por nossas relações internacionais, especialmente com os norte-americanos, serviu à indústria da cesariana. Não haveria problema algum se ações e argumentos usados fossem de natureza científica, fisiológica, biológica, psicológica, social, política, histórica e econômica, nessa ordem.
Infelizmente o que temos são argumentos baseados exclusivamente em mercado, consumo e marketing. Não em primeiro lugar, mas onipotente. Onipresente sobre toda e qualquer consideração de problemas e estudos humanos, sob bases exclusivamente econômicas de exploração, mais-valia e com argumentos baseados em crenças para justificar implantação de métodos abusivos, desnecessários e iatrogênicos.
Curioso que essas notícias sejam dadas assim pelo lado curinga da força. Quem trabalha com pesquisas sobre os prejuízos da alimentação industrial, por exemplo, não foi ouvido. Quem trabalha com alimentação limpa, sem veneno e orgânica, ficou fora da pauta, alheio ao mercado.
Labncheira_saudávelAlimentar bem crianças em escolas públicas e privadas deveria ser algo levado de maneira séria, em prol da saúde e do desenvolvimento, ou seja, educação alimentar. Governos e escolas que se preocupassem com educação sobre saúde procurariam manter relações melhores e mais estreitas com produtores locais de comida limpa, orgânica, sem venenos, com fruticultores, apicultores, gente brasileira que vive da terra, investindo em mercado interno e fortalecimento da economia por meio de relação direta entre gestores de educação e produtores de comida saudável e fresca.
A Zero Hora conseguiu entrevistar uma nutricionista que trabalha para duas escolas privadas. A profissional está revoltada com a proibição da venda de refrigerantes para estudantes de menos de 12 anos. “Para a especialista em nutrição infantil Magali Martins, que trabalha com cantinas de duas escolas particulares de Porto Alegre, parar de vender esse tipo de bebida nas escolas não deve mitigar o desejo de consumo. Sou contra a proibição, porque acho que tudo o que é proibido se trona desejável. As crianças não vão comprar na escola, mas vão levar de casa, ou pior, sair da escola para comprar. O pai que dá refrigerante para o filho não vai deixar de dar – avaliou.”
Cada escola tem apenas uma cantina, assim que os refrigerantes estarão lá, expostos. O que muda de fato?
Nada, a não ser a falsa polêmica criada pela Zero Hora ao colocar a fala de uma entrevistada que vai contra toda e qualquer pesquisa sobre alimentação infantil saudável. Especialista de mercado, para o mercado e pelo mercado, tipo opinião de bêbado em final de festa, temos.
O Conselho Federal de Medicina, em vez de assumir que embaça há anos para respeitar o tempo de gestação natural, que pode passar das 40 semanas, segura a bola nas 39 semanas, mas somente para situações em que a gestante pede a cirurgia. Obstetras continuam livres para mentir sobre ser cordão enrolado indicação para cesariana, assim como pressão alta, diabetes ou a famosa “ausência de dilatação”, que na maioria dos casos é apenas dilatação lenta e progressiva, absolutamente fisiológica. Continuarão os obstetras fazendo episiotomias, kristeller e outras manobras condenadas pela OMS.
O que muda de fato?
Nada, a não ser o falso cartaz de que o Conselho Federal de Medicina está atuante por menores índices de nascimentos prematuros, quando o fato é que vinha lutando contra e conseguiu no tapetão uma brecha para algo aviltante que mantinha como rotina.
O governo  do Rio Grande do Sul em vez de investir em relação direta com associações comunitárias e de bairros, fornecendo carros para buscar roupas ou organizando brechós solidários em praças e parques, por exemplo, se dá ao luxo de promover uma exposição chique com roupas usadas em shopping!
Era isso, três exemplos de operações de marketing, de verniz sobre coisas muito mais amplas que já contam com comprovação científica e lógica. Fica assim um sabor no ar de viva a Coca-Cola e nossa cerveja de milho transgênico, viva as gestantes que poderiam passar de 40 semanas, mas agora são levadas a entender que seus bebês de 39 precisam nascer porque depois de 39 pode, é seguro. Viva as celebridades e suas lindas relações sentimentais com o vestuário.
O que mudou de fato?
A cara de pau do marketing, cada vez mais encerada.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Calma e paciência que o nenê nasce fácil"



Foto e texto: Cláudia Rodrigues

Keretxu Miri, índia guarani de 77 anos de idade, que habita uma aldeia no Espírito Santo, fala de sua experiência como parteira
No universo civilizado, principalmente no ocidente, o parto virou um mito, tanto para as gestantes quanto para a classe médica. As mulheres estão desaprendendo a parir, a amamentar e cuidar dos filhos e os médicos estão cada vez mais preocupados em ganhar tempo e menos habilidosos para auxiliar um trabalho que é muito mais da parturiente do que deles. Atrás de toda a parafernália técnica da ciência e da medicina, está algo que podemos chamar de burrice emocional. Sabemos pilotar um computador, dirigir carros; podemos comprar berços que balançam sozinhos, chupetas coloridas que distraem os bebês, mas por que afinal temos tanta dificuldade em colocar filhos no mundo? Será que não podemos mesmo unir o saber tecnológico à sabedoria primitiva?
O depoimento de uma índia, que faz partos desde que se conhece por gente, resgata o labirinto em que nos perdemos: o do excesso de pressa e preocupação.
   "O sangue não pode subir e a cabeça ficar quente. A mulher precisa ficar calma e esperar a hora que ela vem" 
    Keretxu Miri não esquece a primeira vez que tomou conhecimento de como as crianças vêm ao mundo. Foi por volta de 1930, em algum lugar entre o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo. Os índios Guarani fizeram, a pé, o trajeto entre os dois estados, em busca da terra prometida. Levaram muitos anos para chegar a Santa Cruz, no Espírito Santo, o local que hoje habitam. Durante o percurso não foram poucos os partos. "Lembro bem quando meu pai avisou que teríamos que parar porque minha mãe ia ganhar nenê", conta Keretxu.
    Era noite alta, mas quem já estava dormindo acordou para ajudar. O pai de Keretxu fez um 'rancho de palha de pindó' - palmeira doce - em volta de uma árvore para proteger mãe e filho do frio. "Todos os índios foram cuidar da floresta para não deixar nada de ruim acontecer com a minha mãe e o nenê, que nasceu antes do sol raiar". A tribo ficou acampada três dias e depois seguiu em frente com a mãe de Keretxu carregando, à moda indígena, a pequena Euá.
    Naqueles anos 30, a tribo andava por caminhos, estradas, mas também no meio da mata, perto das cachoeiras, procurando a terra prometida. Sempre havia algum português, italiano, alemão ou japonês  que já era dono das terras.  No meio do caminho chegaram a achar que a terra prometida era em Santos, São Paulo, onde viveram seis anos.  "Era bonito lá em Santos, mas os brancos queriam briga de novo, como no Rio Grande, e então seguimos caminho", revela Keretxu Miri, que não entende, depois de 77 anos de vida, porque os brancos brigam tanto para tirar o ouro da terra. Ela fala que Inhanderu - Deus - é justo com todos. "Inhanderu ajudou o homem branco e ajudou o índio, e fez a Terra para que todos  os viventes pudessem viver aqui, mas Inhanderu não gosta de briga; briga faz mal, faz adoecer, então índio vai embora, mas vai em paz, mesmo nas mãos de Juruá - os brancos".
        Um galo cantou, uma criança chorou e Keretxu Miri ficou silenciosa por longos minutos, antes de voltarmos ao nosso assunto; os partos. O galo pulou de cima da mesa, a criança ganhou o colo da mãe  e um raio de sol atingiu os olhos de Keretxu Miri. Ela me olhou e disse:  "A moça quer saber de parto, mas parto não tem segredo, não posso mentir, mas também o que é sagrado é sagrado", disse com simplicidade.
        Ela conta que sagrado é o getapaãurá, a tesoura de madeira que corta o cordão umbilical e também as ervas (chás calmantes e levemente anestésicos) que acalmam a mulher para o parto. Nada disso pode ser filmado ou fotografado, mas Keretxu conta alguns dos 'segredos'. Detalhe: ela sempre faz questão de, entre uma e outra informação, pontuar que só se aprende vendo, observando e pensando antes de fazer. "O pensamento é muito importante e olhar com os olhos. Não dá para contar, é simples, é bom, não é problema receber o nenê", revela com sinceridade, os olhos brilhando, a expressão sorridente e calma. Receber o nenê, como diz a velha parteira, é uma das maiores dificuldades no mundo civilizado, tanto em função do tempo, quanto por deficiência de escola, já que nossos médicos não estudam psicologia e entendem pouco de uma das coisas que parteiras como Keretxu mais entendem: o universo emocional, que é inexoravelmente primitivo. Índias ou brancas, amarelas ou negras; na hora do parto a mulher vira uma leoa, um bicho que dá conta de "se livrar da dor" expelindo o bebê. Caso contrário, é cirurgia na certa.
        SEGREDOS -  Apesar de afirmar convicta que o parto não tem segredo, Keretxu explica que o 'nervoso' da mãe e até do pai pode atrasar o momento final do parto, a hora da expulsão. "Quando a mãe fica nervosa, o sangue sobe para a cabeça e o nenê não vem". Mal sabe ela que esta afirmação contém mais ciência do que ela imagina. O Dr. Elsworth Baker, americano que trabalha com gestantes ocidentais há mais de vinte anos, revela no livro O Labirinto Humano, que "quando a parturiente enrijece o queixo, recolhe os ombros, segura os punhos e a respiração, isso a faz apertar o soalho pélvico, o fluxo sangüíneo fica preso na metade superior do corpo e isso dificulta a descida do bebê". Segundo o médico, a tensão e a ansiedade excessiva na mulher, que não se sente capaz de parir, podem elevar a níveis alarmantes os batimentos cardíacos do feto, o que acabará exigindo uma intervenção cirúrgica, a menos que mãe seja acalmada em suas preocupações e estimulada a se entregar para a situação que se apresenta, relaxando e recebendo as informações enviadas pelo seu próprio corpo.
      Keretxu Miri, que não sabe contar com precisão quantos partos fez na vida, afirma pacientemente que existem poucas providências a ser tomadas quando inicia o trabalho de parto. "Quando a mulher percebe que está chegando a hora, só precisa falar com Nhanderu e continuar normal, trabalhar um pouco e esperar com paciência que o nenê vem".  Keretxu fala também que se o pai ajuda em casa nesse dia, preparando a comida, limpando e arrumando, isso ajuda a mulher a ficar calma, mas se o pai está nervoso é mau sinal. "Quando o pai e a mãe estão em briga o espírito da criança quer fugir e ela pode enfraquecer e morrer dentro da barriga ou depois de nascida", revela com uma sabedoria que pode assustar os brancos mais desavisados.
        A velha índia, anciã da tribo Tekoa Porã, fala com simplicidade, sem qualquer traço de orgulho, que nunca teve problemas com os partos que fez. "Sei de ouvir falar. Minha mãe contava que o principal do parto era acalmar a mãe para o nenê poder sair. Ela já tinha visto mãe morrer e criança também por causa do nervoso" conta, sem tentar esconder a resignação diante da vida e depois acrescenta: "Meus olhos nunca viram nenhuma mãe e nenhuma criança morrer de parto". Eu pergunto se é sorte, ela responde que não, que é Nhanderu que a ensina a acalmar as mulheres que precisam.
       Depois explica que algumas índias têm medo e por isso vão ganhar seus bebês nos hospitais. "Acho que cada um faz a sua escolha, se a pessoa tem um medo que eu não consigo acalmar, não vou usar a força, deixo na vontade dela", conta, sublinhando que nenhuma das mães e das crianças que atendeu precisou ir para o hospital. "Existem mulheres que querem fazer coisa errada na hora do parto e isso pode atrapalhar para o nenê sair", afirma, explicando que as coisas erradas para o dia do parto são comer, falar demais, não sentir e não pensar. "Quando a mulher fica assim, ela não fala com Nhanderu, fica sem paz no coração e a cabeça esquenta" pontua. O Dr. Hélio Bergo, obstetra e homeopata, especialista em partos naturais, aconselha suas pacientes a ficarem com elas mesmas. "Durante o trabalho de parto é importante que a mulher preste atenção aos ritmos do corpo ao invés de fugir assustada para uma solução externa", afirma, endossando a sabedoria primitiva da parteira.
        O DIA 'D' - No dia de um parto, Keretxu Miri fica com Nhanderu. "Eu rezo, peço para Nhanderu proteger aquela mãe e aquela criança e Nhanderu me ajuda", relata tranqüila. Pergunto se ela conhece manobras para partos complicados e ela diz que não há nada complicado, que é só observar. "Se a mulher está muito nervosa a gente faz um chá. O bom é o caaminí ou então o capíía - chás com propriedades calmantes - e é importante que ela não coma nada de açúcar e nada de sal. O chá do mato amarguinho e mais nada, recomenda. Para acalmar é preciso também conversar, aconselhar e é isso também que Keretxu Miri faz. “Eu vou lá e falo com calma, que é assim mesmo, que não dá para fugir e então a pessoa se acalma e o nenê vem", conta, sem o menor estrelismo.
       Ela explica que, para facilitar o trabalho de parto, é bom ficar sentada ou agachada segurando alguma coisa bem firme no chão e que não adianta ficar fugindo, não querendo passar por aquilo. "Mas tem mulheres que preferem deitar na cama para ganhar os bebês. Não tem problema, a pessoa é que escolhe como se sente melhor" pondera, desmistificando a idéia de que toda a índia dá à luz agachada.
       Depois que o bebê consegue girar e sair, é hora de amarrar o cordão com uma linha feita de algodão, fabricada na aldeia e depois é a vez de cortá-lo, com o getapaãurá, uma tesoura de madeira, também feita pela tribo. "Tudo tem que estar bem limpinho", ressalta.
        Os primeiros meses, principalmente os três primeiros depois que a criança nasce, segundo Keretxu Miri, devem ser de muito cuidado e a mulher não deve comer carne de galinha, de boi e nem de peixe. "Só mais a canjiquinha cozida, bem leve e com bastante caldo até o umbiguinho cair, depois pode voltar a comer, mas sem exagero nos primeiros meses", aconselha para evitar cólicas ao bebê, mais uma vez evidenciando que o segredo das índias para conviver bem com a gravidez, com o parto e a criação dos filhos é calma, muita calma.
        Aí está. Palavra de índia que já pariu muitos filhos e já ajudou a nascer outros tantos. Em tempos de pressa, providências e precauções, urge a necessidade da palavra de uma especialista, de uma doutora do pensamento que sente, do sentimento que pensa. 
Unindo saberes 
Não somos índias, não passamos boa parte do dia acocoradas na beira do rio lavando roupas, não plantamos mais e nossa vida é mesmo apressada e cheia de estresse. Estamos então condenadas a colocar nossos filhos no mundo somente através de intervenções cirúrgicas?
É claro que não. As japonesas modernas, as chinesas e as européias do norte também trabalham o dia inteiro, vivem sob estresse e mesmo assim conseguem parir a maioria dos filhotes sem maiores neuras. O que elas têm que nós brasileiras, campeãs mundiais de cesarianas, não temos?
Várias coisas. Em primeiro lugar, apoio da sociedade médica. No Brasil a exceção à regra é o parto normal e não a cirurgia, mas é sempre bom lembrar que o velho ditado que afirma que quando um não quer dois não fazem, é muito válido.
     A mulher que deseja parto normal, na atual conjuntura social e cultural do país, necessita procurar um profissional que tenha feito mais partos naturais do que cirúrgicos. Não é exatamente como encontrar agulha no palheiro, mas é quase e neste caso não convém usar panos quentes. A maioria das clínicas privadas do país tem um índice muito alto de cirurgias e portanto é preciso checar esse detalhe. Tomadas essas duas providências - escolha do médico e de uma clínica ou hospital humanista- é hora de dar um mergulho profundo no corpo e aí temos chances iguais ou até maiores do que as índias e outros povos primitivos.
      Não podemos plantar grama e muito menos lavar roupa na beira do rio todos os dias, mas contamos com profissionais especializados que podem ajudar a gestante na preparação para o parto. Técnicas e vivências corporais como tai chi chuan, ioga, natação, bioenergética, biodinâmica e muitas outras estão à disposição das futuras mamães que, apesar de civilizadas, desejam aprender como chegar ao ponto final de um corpo de gestante: o desencadeamento do parto.
       Só para garantir, vale lembrar dos conselhos da velha índia: sentir, pensar, não comer, falar pouco e esperar com calma, muita calma para a cabeça não esquentar e o "nervoso" não atrapalhar.